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- O que é um SURTO da Esclerose Múltipla?
Uma das perguntas mais frequentes no consultório e nas redes sociais, por ser um momento de grande incerteza, é: "Dr. Mateus, como eu sei que estou tendo um surto de Esclerose Múltipla?" É uma dúvida fundamental e que merece toda a atenção.
Em pacientes com Esclerose Múltipla, um surto é caracterizado pelo surgimento de novos sintomas neurológicos, ou pelo agravamento de sintomas preexistentes, que persistem por mais de 24 horas. É essencial que esses sintomas aconteçam na ausência de febre ou qualquer tipo de infecção em curso, que poderia mimetizar um surto. Mas calma, nem todo sintoma novo que dura mais de 24 horas será classificada como surto, após uma consulta neurológica detalhada.
Os surtos ocorrem devido a uma nova inflamação focal no sistema nervoso central, que resulta na desmielinização. Isso significa uma perda da bainha de mielina, aquela camada protetora que reveste os neurônios e é vital para a rápida e eficiente transmissão dos impulsos elétricos. Quando a mielina é danificada, o impulso elétrico pode passar muito lentamente ou, em alguns casos, simplesmente não conseguir passar, gerando os sintomas. Quando essa mancha inflamada, ou lesão, ocorre em uma área do cérebro ou da medula com uma função muito específica e importante, o paciente percebe claramente os impactos.
Geralmente, os sintomas do surto começam a se manifestar ao longo de alguns dias, progredindo e causando cada vez mais dúvidas e preocupações, até que você converse com o seu neurologista. Após a avaliação clínica e neurológica, muitas vezes a conclusão pode ser: "Sim, isso sugere um surto" ou "Não, isso é um pseudo-surto", ou ainda "Não, isso é um sintoma paroxístico". Os surtos reais vem quase sempre acompanhados de novas lesões na ressonância, e podem afetar diferentes partes do sistema nervoso, como o nervo óptico (neurite óptica), a medula espinhal (mielite), o tronco cerebral ou até mesmo várias áreas do cérebro ao mesmo tempo.
Os sintomas são variados, mas alguns são bastante comuns e servem de alerta. Dentre eles, podemos citar a visão embaçada ou borrada, muitas vezes acompanhada de dor ao movimentar os olhos, que pode indicar uma neurite óptica. Outros sinais incluem dormência, sensação de choque e formigamento em partes do corpo. Também é comum sentir a perna pesada, ter dificuldade para caminhar e até mesmo apresentar urgência ou incontinência urinária. O desequilíbrio e a visão dupla (ver imagens duplicadas) ou olho torto são igualmente indicativos.
Uma dúvida comum é: "Doutor, já tive fraqueza na perna direita e agora sinto novamente na mesma perna! Pode ser um surto igual ao antigo?" Sim, é possível que um novo surto ocorra em uma área previamente afetada. No entanto, é fundamental descartarmos outras situações que podem mimetizar um surto, como um pseudo-surto ou um fenômeno de Uthoff. Um pseudo-surto não é uma nova lesão inflamatória, mas sim o reaparecimento ou agravamento temporário de cicatrizes e sintomas antigos devido a fatores como estresse, infecção, calor ou fadiga. Já o fenômeno de Uthoff se refere à piora transitória dos sintomas neurológicos existentes, especialmente com o aumento da temperatura corporal.
Quando é possível e necessário, confirmamos a presença de um surto com uma Ressonância Magnética, buscando identificar lesões novas ou ativas (que "acendem" com contraste), responsáveis pelos sintomas. Na maioria das vezes, quando a história e o exame neurológico são típicos, as lesões são visíveis. Contudo, em algumas situações, mesmo diante de um surto real, pode ser que a Ressonância Magnéticanão mostre uma lesão nova aparente, seja porque ela é muito pequena ou porque, na verdade, trata-se de um pseudo-surto.
Com ou sem a confirmação por ressonância, uma vez que o neurologista julga se tratar de um novo surto, sempre descartamos a presença de infecções antes de iniciar qualquer tratamento. Confirmado o surto, as principais abordagens são:
- A prescrição de Pulsoterapia, que consiste na administração de altas doses de corticoides (geralmente por 3 a 5 dias, via venosa ou oral). Essa terapia tem como principal objetivo acelerar a recuperação do surto, reduzindo a inflamação de forma rápida. É importante ressaltar que a pulsoterapia não é um tratamento de manutenção da doença; ela atua na fase aguda do surto. Em casos de sintomas muito leves, a pulsoterapia pode não ser obrigatória.
- A reavaliação da terapia modificadora da doença, que é o tratamento contínuo da Esclerose Múltipla. Dependendo da gravidade e frequência dos surtos, pode ser necessário iniciar, manter ou trocar o tratamento de base, sempre de forma individualizada, caso a caso. Cada paciente é único, e a comparação de tratamentos entre si não é adequada.
É crucial entender que um surto de Esclerose Múltipla SEMPRE deve ser avaliado e julgado por um neurologista. A complexidade dos sintomas e a necessidade de um manejo adequado exigem a expertise de um especialista.
Se você está passando por um surto ou se recuperando de um, mantenha o otimismo e converse abertamente com seu neurologista. Nosso objetivo é sempre o seu bem-estar e a melhor qualidade de vida possível.
Se você suspeita de sintomas que podem indicar um surto de Esclerose Múltipla, ou se já possui o diagnóstico e busca um acompanhamento especializado, a avaliação e o cuidado de um neurologista com experiência em doenças desmielinizantes são fundamentais. A complexidade dessa condição exige um olhar atento e atualizado para garantir o diagnóstico correto e as melhores estratégias de tratamento, visando sempre a sua qualidade de vida e a prevenção de sequelas. Não hesite em buscar essa orientação especializada.
Tenho um vídeo no youtube que explica vários destes detalhes:
Um abraço,
Dr. Mateus Boaventura Neurologista especialista em Esclerose Múltipla e Neuromielite Óptica CRM-SP 152585 RQE 70828
Referências Científicas:
1. Kalincik T. Multiple Sclerosis Relapses: Epidemiology, Outcomes and Management. A Systematic Review. Neuroepidemiology. 2015;44(4):199-214.







