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- Bandas oligoclonais no líquido cefalorraquidiano: o que todo neurologista precisa saber
A pesquisa de bandas oligoclonais (BOC) é um dos exames mais relevantes — e, ao mesmo tempo, nem sempre bem interpretado — na investigação de doenças desmielinizantes do sistema nervoso central. O método padrão-ouro, por isoeletrofocalização com imunofixação, deve ser sempre realizado em pares: líquor e sangue do mesmo paciente, coletados próximos no tempo. Essa comparação pareada é o que permite distinguir uma produção de imunoglobulinas restrita ao sistema nervoso central (produção intratecal) de uma produção sistêmica, que apenas "vaza" para o líquor.
A partir da comparação entre os dois compartimentos, reconhecemos quatro padrões principais:
- Padrão 1 — perfil policlonal normal no líquor e no sangue: não há evidência de BOC, e o resultado é considerado ausente.
- Padrão 2 — BOC no líquor com perfil policlonal normal no sangue: o padrão clássico de produção intratecal de imunoglobulinas, o mais associado às doenças inflamatório-desmielinizantes do SNC.
- Padrão 3 — BOC em ambos os compartimentos, porém em maior número no líquor: também indica produção intratecal, ainda que associada a atividade sistêmica concomitante.
- Padrão 4 — o chamado "padrão em espelho": as mesmas BOC, em número equivalente, no líquor e no sangue, sugerindo origem sistêmica da inflamação, e não produção intratecal verdadeira.
Essa distinção reforça por que a análise pareada é indispensável: olhar apenas o líquor, sem o sangue correspondente, pode levar a uma interpretação equivocada.
Aplicações clínicas
Os padrões 2 e 3 — ambos compatíveis com produção intratecal — têm aplicações bem definidas. Na Esclerose Múltipla, mais de 85% dos pacientes apresentam BOC positivas no líquor, o que torna o exame um forte apoio diagnóstico, especialmente em casos de apresentação atípica ou de ressonância magnética não totalmente conclusiva. Em contraste, na Neuromielite Óptica (NMOSD) e na doença associada ao anticorpo anti-MOG (MOGAD), a positividade é baixa, inferior a 15% dos casos — uma diferença que auxilia diretamente no diagnóstico diferencial entre essas condições e a Esclerose Múltipla. Em pacientes com síndrome clinicamente isolada, a presença de BOC também carrega valor prognóstico, associando-se a maior risco de conversão para Esclerose Múltipla clinicamente definida.
O papel nos critérios diagnósticos: de 2017 a 2024
Esse valor prognóstico não é apenas teórico — foi formalmente incorporado aos critérios vigentes. Um estudo de coorte prospectiva conduzido em Barcelona, acompanhando pacientes com síndrome clinicamente isolada, forneceu a evidência que permitiu reinserir as BOC nos critérios de McDonald de 2017. Na prática, isso significa que um paciente com BOC presentes e disseminação no espaço (DIS) — lesões típicas em mais de uma das topografias características — pode receber o diagnóstico de Esclerose Múltipla remitente-recorrente já nesse momento, uma vez excluídas outras causas, sem a necessidade de aguardar um segundo evento clínico ou uma segunda ressonância demonstrando disseminação no tempo (DIT).
As revisões de 2024 dos critérios de McDonald (Montalban et al., Lancet Neurology, 2025) mantiveram e ampliaram esse papel:
- As BOC permanecem como substituto (surrogate) de DIT quando a DIS já está demonstrada.
- O painel reconheceu formalmente o índice de cadeias leves livres kappa (κ-FLC) no líquor como equivalente às BOC para demonstrar síntese intratecal de imunoglobulinas, com sensibilidade e especificidade comparáveis — a concordância entre os dois métodos fica em torno de 90%, e em casos duvidosos a dosagem de ambos pode ser considerada.
- Pela primeira vez, pacientes com síndrome radiologicamente isolada (RIS) podem ser diagnosticados com Esclerose Múltipla quando há DIS e positividade de líquor (BOC ou κ-FLC) — ou evidência de DIT, ou número-limite de lesões com sinal da veia central (≥6).
- Outras atualizações diagnósticas, que podem ser checadas em outros textos do meu site ou instagram.
As BOC representam disseminação no tempo?
Essa incorporação costuma gerar uma dúvida frequente entre neurologistas. A resposta, tecnicamente, é não. O papel das BOC nos critérios diagnósticos é funcionar como um substituto (surrogate) da disseminação no tempo em um cenário muito específico — a combinação com disseminação no espaço já demonstrada —, e não como um equivalente direto de um novo surto ou de uma nova lesão. Esse é, inclusive, um ponto que a pesquisadora Georgina Arrambide já discutiu: o verdadeiro significado das BOC nos critérios diagnósticos deve ser compreendido dentro do contexto específico em que foram validadas, e não extrapolado livremente para qualquer situação clínica.
Na prática
- Solicite sempre a análise pareada entre líquor e sangue, nunca o líquor isoladamente.
- Interprete o resultado dentro do contexto clínico e radiológico de cada paciente — as BOC são um exame complementar robusto, mas não um critério diagnóstico isolado e suficiente por si só.
- Em pacientes em uso prolongado de terapias anti-CD20, séries de casos documentam que as BOC podem se tornar indetectáveis — um dado relevante ao reavaliar o diagnóstico em pacientes já em tratamento.
- O κ-FLC ganhou estatuto formal nos critérios de 2024 e merece um texto dedicado — tema do próximo artigo.
Dr. Mateus Boaventura Neurologista especialista em Esclerose Múltipla e Neuromielite Óptica CRM-SP 152585 | RQE 70828
Referências Científicas:
- Thompson AJ, Banwell BL, Barkhof F, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2017 revisions of the McDonald criteria. Lancet Neurol. 2018;17(2):162-173.
- Montalban X, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2024 revisions of the McDonald criteria. Lancet Neurol. 2025;24(10):850-865.
- Arrambide G, Tintoré M, Espejo C, et al. The value of oligoclonal bands in the multiple sclerosis diagnostic criteria. Brain. 2018;141(4):1075-1084.
- Arrambide G, Tintoré M, Montalban X. Oligoclonal bands do not represent dissemination in time in the 2017 revisions to the McDonald criteria. Mult Scler. 2019;25(12):1690-1691.
- Arrambide G, Espejo C, Carbonell-Mirabent P, et al. The kappa free light chain index and oligoclonal bands have a similar role in the McDonald criteria. Brain. 2022 Nov 21;145(11):3931-3942. doi: 10.1093/brain/awac220. PMID: 35727945.












