O contraste (gadolínio) deve ser sempre usado nas ressonâncias magnéticas na Esclerose Múltipla?

O contraste (gadolínio) deve ser sempre usado nas ressonâncias magnéticas na Esclerose Múltipla?

Identificar lesões captantes de gadolínio é de extrema relevância na Esclerose Múltipla e em outras doenças inflamatório-desmielinizantes do sistema nervoso central. Quando uma lesão capta gadolínio, isso indica que ela é recente — surgida, em geral, nas últimas duas a seis semanas —, consequência da quebra da barreira hematoencefálica que acompanha a cascata fisiopatológica de formação de novas lesões focais.

Além de permitir, em conjunto com lesões antigas, demonstrar disseminação temporal — um dado especialmente relevante no diagnóstico inicial —, a captação de gadolínio tem outras aplicações práticas. Ela auxilia a mensurar atividade inflamatória subclínica e a resposta a terapias em curso. Quando aplicada em sequência FLAIR 3D de alto campo magnético, pode identificar realce meníngeo, achado cuja relação com a progressão da doença ainda está sob investigação ativa. No campo do diagnóstico diferencial, a captação de gadolínio ajuda a distinguir a Esclerose Múltipla de outras lesões que podem mimetizá-la, como lesões de enxaqueca ou microinfartos antigos. Por fim, é também uma ferramenta útil para identificar complicações relacionadas a determinados tratamentos.

Diante de tantas aplicações, por que então questionar seu uso sistemático? A resposta está em alguns riscos que, embora raros, merecem ponderação. Existe o risco, já conhecido, de fibrose sistêmica nefrogênica, que exige sempre a checagem do clearance de creatinina antes da administração. Existe também a deposição de gadolínio no cérebro e no corpo — um fenômeno já comprovado, ainda que sua repercussão clínica permaneça em debate. Soma-se a isso o fato de que já existem, em validação, outros métodos capazes de identificar lesões novas sem o uso de contraste: sequências de difusão, susceptibilidade magnética, mensuração da intensidade do sinal das lesões, entre outros, incluindo o uso de pós-processamento não convencional sobre sequências já convencionais.

Diante desse equilíbrio entre utilidade e risco, como minimizar a exposição ao gadolínio sem perder informação relevante? Um primeiro passo é preferir, sempre que possível, agentes de gadolínio macrocíclicos, reconhecidamente mais seguros do que os agentes lineares. Um segundo passo é saber identificar situações clínicas em que a injeção de gadolínio pode ser dispensada sem prejuízo diagnóstico: ressonâncias realizadas em intervalos curtos de tempo, nas quais lesões novas em T2 já serão suficientemente recentes para serem identificadas sem contraste; pacientes em longo período de estabilidade clínica e radiológica; e exames de rastreamento de leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP), nos quais o foco deve estar nas sequências T2-FLAIR e de difusão (DWI), e não na captação de gadolínio.

Independentemente do risco ou da situação clínica específica, o gadolínio permanece, ainda hoje, um dos principais marcadores utilizados tanto pelo neuroimunologista quanto pelo neurorradiologista na avaliação de doenças desmielinizantes. A questão, portanto, não é abandonar seu uso, mas aplicá-lo de forma criteriosa — reconhecendo os cenários em que ele realmente agrega informação diagnóstica e aqueles em que pode, com segurança, ser dispensado.

Um abraço,

Dr. Mateus Boaventura

Neurologista especialista em Esclerose Múltipla e Neuromielite Óptica

CRM-SP 152585

RQE 70828

Referências Científicas:

1. Granziera C. Multiple Sclerosis Journal. 2020;26(7):765-766.

2. Mattay RR, et al. American Journal of Neuroradiology (AJNR). 2018.

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