Entenda o que é a Esclerose Múltipla

Entenda o que é a Esclerose Múltipla

Apesar de seu nome possuir o termo "esclerose", que por vezes nos faz pensar em envelhecimento ou demência, a Esclerose Múltipla é, na verdade, uma complexa doença neurológica autoimune que desafia algumas desinformações. Ela afeta predominantemente adultos jovens, geralmente entre 15 e 50 anos (muitas citações também colocam a faixa de 20-40 anos), e se manifesta com maior frequência em mulheres. No Brasil, estimamos que mais de 40.000 pessoas vivam com o diagnóstico de EM, um número que, infelizmente, ainda é considerado subestimado. Trata-se de uma das principais causas de incapacidade neurológica na população jovem.

A Esclerose Múltipla é caracterizada por um ataque do nosso próprio sistema imunológico contra a mielina e outros componentes do sistema nervoso central. A mielina é uma substância gordurosa essencial que funciona como uma "capa protetora" ou isolante para as fibras nervosas (axônios) no nosso cérebro, medula espinhal e nervos ópticos. Essa capa é fundamental para que os impulsos elétricos sejam transmitidos de forma rápida e eficiente em todo o sistema nervoso. Quando a mielina é destruída, um processo chamado desmielinização, a comunicação entre os neurônios é desacelerada ou interrompida, resultando nos diversos sintomas da doença. Além dessa inflamação e desmielinização, a Esclerose Múltipla também pode envolver um componente degenerativo, com a perda direta dos axônios e neurônios, o que contribui para a progressão da incapacidade ao longo do tempo. Embora a causa exata da Esclerose Múltipla ainda não seja totalmente conhecida, sabemos que ela é resultado de uma interação complexa entre fatores genéticos e ambientais, como a infecção pelo vírus Epstein-Barr (principal fator associado), os níveis baixos de vitamina D, o tabagismo, a obesidade e até mesmo alterações em nossa microbiota intestinal. Sobre a relação entre o vírus Epstein-Barr e a Esclerose Múltipla, tive a oportunidade de colaborar em uma reportagem para a revista Veja, onde é possível encontrar mais detalhes: https://saude.abril.com.br/medicina/virus-epstein-barr-esclerose-multipla/.

Eu explico que, historicamente, a doença se manifesta de diferentes formas, que variam conforme o início e a evolução. Os três principais tipos historicamente descritos incluem a Esclerose Múltipla Remitente-Recorrente (EMRR), a Primariamente Progressiva (EMPP) e a Secundariamente Progressiva (EMSP). No entanto, é importante ressaltar que a tendência atual na neurologia é entender a EM como uma doença única, onde essas "formas" representam diferentes momentos ou predomínios de inflamação aguda ou crônica no curso da vida do paciente, e não doenças completamente distintas. Em aproximadamente 85% dos casos, a doença se inicia com surtos, que são episódios de novos sintomas neurológicos ou piora de sintomas preexistentes, com duração acima de 24 horas, durando entre de dias a semanas. Após um surto, os sintomas podem melhorar total ou parcialmente (remissão), mas tendem a recorrer ao longo do tempo, caracterizando a forma remitente-recorrente, descrita acima.

Os surtos podem ser bastante variados, afetando diferentes funções do sistema nervoso central, como a visão, sensibilidade, força muscular, o equilíbrio e a coordenação. Um dos surtos mais reconhecíveis é a neurite óptica (https://drmateusboaventura.com.br/para-pacientes/161/o-que-fazer-diante-de-uma-neurite-optica) uma inflamação do nervo óptico que causa redução da acuidade visual (visão embaçada ou perda de visão) e dor ao movimentar os olhos. Outras manifestações comuns incluem dormência, formigamento nos membros, desequilíbrio, fraqueza muscular e alterações no controle da bexiga e intestino. Além dos surtos, muitos pacientes experimentam sintomas persistentes mesmo em períodos de remissão, como fadiga crônica, dificuldades de atenção e concentração, e disfunções sexuais, que são frequentemente chamados de "sintomas invisíveis" da EM.

Em uma minoria dos casos, menos de 15%, a doença não apresenta surtos definidos e progride lentamente desde o início. Nesta forma, conhecida como Esclerose Múltipla Primariamente Progressiva, os pacientes podem notar uma piora gradual em funções como a marcha, fraqueza muscular, desequilíbrio e declínio cognitivo. Existe ainda a Esclerose Múltipla Secundariamente Progressiva, que se desenvolve em uma parcela dos pacientes que inicialmente tiveram a forma remitente-recorrente, evoluindo para uma progressão lenta e gradual da incapacidade após vários anos.

O diagnóstico da Esclerose Múltipla, muitas vezes, é um desafio e pode levar a um atraso significativo, com pacientes buscando diferentes especialistas antes de chegarem ao neurologista. Essa demora no diagnóstico e no início do tratamento pode resultar no acúmulo de sequelas. O processo diagnóstico envolve uma avaliação clínica detalhada dos sintomas, exames de ressonância magnética do cérebro, medula espinhal e nervos ópticos, que revelam as lesões típicas da doença distribuídas em diferentes regiões. Complementarmente, a análise do líquido cefalorraquidiano (LCR, ou líquor), obtido por punção lombar, busca por "bandas oligoclonais" e/ou o índice de cadeias kappa livres (κ-FLC) no líquor (LCR), dois marcadore importantes. Exames laboratoriais são realizados para descartar outras condições com sintomas semelhantes e, em alguns casos, testes visuais, como os potenciais evocados e tomografia de coerência óptica (OCT), podem ser úteis. O diagnóstico é estabelecido seguindo critérios internacionais rigorosos, que consideram a disseminação das lesões no espaço e no tempo. É importante mencionar que, em 2024, foram apresentados no Congresso Europeu de Esclerose Múltipla os novos critérios diagnósticos da doença, que trouxeram diversas mudanças — incluindo a possibilidade de estabelecer o diagnóstico mesmo em pessoas assintomáticas, desde que apresentem lesões cerebrais altamente típicas em exames de ressonância magnética e atendam a critérios específicos.

Antes de 1993, as opções terapêuticas para a Esclerose Múltipla eram extremamente limitadas. Contudo, a medicina avançou significativamente, e atualmente, há mais de uma dezena de terapias modificadoras da doença (TMDs) aprovadas. Eu afirmo que cada opção de tratamento possui um perfil único de eficácia e de potenciais efeitos adversos. A escolha é altamente individualizada, considerando as características da doença de cada paciente e suas condições de saúde. O objetivo principal do tratamento é prevenir novos surtos, conter a formação de novas lesões cerebrais e medulares e, reduzir o acúmulo de incapacidade a longo prazo. Embora a cura para a Esclerose Múltipla ainda não tenha sido alcançada, o cenário mudou drasticamente desde a aprovação da primeira terapia há mais de 30 anos. Hoje, um grande percentual de pacientes pode alcançar uma boa qualidade de vida e não evoluir para uma incapacidade neurológica significativa, desde que recebam um diagnóstico e um tratamento precoces e adequados.

É fundamental reduzir o tempo até o diagnóstico e garantir que mais pacientes recebam os cuidados necessários a tempo, transformando a trajetória da doença e promovendo uma melhor qualidade de vida. Para quem deseja aprofundar ainda mais neste tema, tenho alguns vídeos em meu canal do YouTube e no meu perfil do Instagram, que abordam diversos temas relacionados à Esclerose Múltipla. Se você ou alguém que conhece está vivenciando sintomas neurológicos que podem indicar Esclerose Múltipla, ou se já recebeu o diagnóstico e busca um acompanhamento especializado, é fundamental procurar um neurologista. Eu estou à disposição para ajudá-lo(a) a entender melhor sua condição, oferecer o suporte necessário e traçar o melhor caminho para o seu bem-estar. Não hesite em buscar uma avaliação médica especializada para cuidar da sua saúde neurológica.

Um abraço,

Dr. Mateus Boaventura Neurologista especialista em Esclerose Múltipla e Neuromielite Óptica

CRM-SP 152585 RQE 70828


Referências Científicas:

  1. Jakimovski D, Bittner S, Zivadinov R, Morrow SA, Benedict RH, Zipp F, Weinstock-Guttman B. Multiple sclerosis. Lancet. 2024 Jan 13;403(10422):183-202. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(23)01473-3/abstract
  2. Montalban X, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2024 revisions of the McDonald criteria. The Lancet Neurology. 2024;24(10):850-865. https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1
Compartilhar:

© 2026 Dr. Mateus Boaventura de Oliveira - Todos os direitos reservados. - Criado por Sunset

Coletamos dados para melhorar o desempenho e segurança do site. Você pode conferir nossa Política de privacidade