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- O que fazer diante de uma neurite óptica?
Como neurologista especialista em doenças autoimunes neurológicas, frequentemente me deparo com pacientes que apresentam a neurite óptica. Mas o que exatamente significa essa condição e por que ela merece nossa atenção?
A neurite óptica é, em essência, uma inflamação que atinge o nervo óptico, a "via expressa" responsável por levar as informações visuais dos nossos olhos até o cérebro. Os primeiros sinais que geralmente observamos são uma visão turva, que pode surgir gradualmente, e, em muitos casos, uma dor característica ao movimentar os olhos.
Além da visão embaçada e da dor, os pacientes podem notar outros sintomas visuais. É comum ter dificuldade em diferenciar cores, especialmente o vermelho, e a percepção de "pontos cegos" ou áreas escuras ou brilhantes que atrapalham o campo visual. Alguns descrevem até flashes de luz. Diferentemente de um problema de visão que surge de repente, a neurite óptica geralmente se desenvolve ao longo de horas, progredindo e piorando em alguns dias ou até semanas. Observamos que, de forma mais comum, ela afeta apenas um olho e é mais prevalente em mulheres jovens. Embora os sintomas possam ser assustadores, na maioria das vezes a condição não é grave a ponto de causar perda permanente da visão e tende a responder bem ao tratamento com corticoides. Existem outros casos que podem ser mais graves, e inclusive acometer os dois nervos ópticos ao mesmo tempo.
Uma das primeiras perguntas que surgem é: o que causa a neurite óptica? Em mulheres jovens, a Esclerose Múltipla (EM) é, sem dúvida, uma das causas mais frequentes. No entanto, existem outras doenças inflamatórias importantes que também podem levar a essa condição. Entre elas, destacam-se a Doença do Espectro da Neuromielite Óptica (NMOSD), que pode ser mais grave, mas felizmente é tratável – em alguns casos, pode-se precisar de um tratamento mais intensivo, como a plasmaférese, um procedimento que filtra o plasma do sangue para remover substâncias inflamatórias. Há também a doença associada ao anticorpo anti-MOG (MOGAD), uma condição menos frequente que a EM e a NMOSD, e outras como a sarcoidose.
É importante ressaltar que, aqui no Brasil, não podemos nos esquecer de causas infecciosas que afetam o nervo óptico ou mesmo a retina. Em nossa prática, investigamos a possibilidade de infecções como sífilis e toxoplasmose (que pode causar uma "neurorretinite"), e até mesmo algumas condições mais raras como o linfoma, que podem mimetizar neurite óptica autoimune.
Para chegar a um diagnóstico preciso e iniciar o tratamento adequado, é fundamental uma investigação minuciosa. Eu sempre valorizo uma conversa detalhada com o paciente, um exame neurológico completo e a colaboração com um neuro-oftalmologista. Além disso, solicitamos exames complementares importantes, como a ressonância magnética do cérebro, da medula espinhal e das órbitas, análise do líquor (o líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal) e exames de sangue específicos.
Quando há suspeita de EM, muitas vezes podemos fechar o diagnóstico se a ressonância magnética já mostrar lesões desmielinizantes típicas. Em outras situações, o paciente pode apresentar o que chamamos de "Síndrome Clinicamente Isolada", ou seja, um primeiro episódio neurológico (como a neurite óptica) que ainda não preenche todos os critérios para Esclerose Múltipla. Nesses casos, avaliamos cuidadosamente o risco de o paciente desenvolver EM no futuro, e é fundamental que essa informação seja discutida em detalhes com um especialista. Com os novos critérios diagnósticos de EM de 2024, o nervo óptico está incluído como uma nova localização para preenchimento dos critérios. Para diferenciar as causas, podemos solicitar exames de sangue específicos, como o teste para anti-Aquaporina-4 e/ou anti-MOG. Esses exames são cruciais porque um resultado positivo pode mudar completamente o curso do diagnóstico e do tratamento, direcionando para a Neuromielite Óptica ou para a doença associada ao anti-MOG, como mencionei anteriormente.
Na fase aguda da neurite óptica, o tratamento rápido é essencial e geralmente envolve a pulsoterapia com metilprednisolona, que é a administração de altas doses de corticoide por via intravenosa, usualmente por um período de 3 a 5 dias. Esta "pulso" tem o objetivo de reduzir rapidamente a inflamação. Em casos mais graves, ou quando a resposta à pulsoterapia não é a esperada, podemos considerar a plasmaférese, um procedimento onde uma máquina filtra o sangue para remover substâncias inflamatórias do corpo, visando uma recuperação mais efetiva. É crucial que esses tratamentos sejam iniciados o mais rápido possível para otimizar a recuperação visual e minimizar sequelas. É importante ressaltar que esses tratamentos agudos não são utilizados nas fases crônicas da doença.
A boa notícia é que, para as principais causas autoimunes da neurite óptica — a Esclerose Múltipla, a Neuromielite Óptica e a doença associada ao anti-MOG —, existem medicações eficazes que eu, como neurologista especialista em doenças autoimunes, utilizo para prevenir novos "surtos", que são episódios de inflamação e sintomas. Mesmo após o tratamento inicial, um acompanhamento contínuo com o neurologista e avaliações periódicas com o oftalmologista são essenciais. É importante saber que nem sempre conseguimos um diagnóstico definitivo de imediato. Em alguns casos, a condição pode ser classificada como "neurite óptica recorrente de causa a esclarecer" ou até mesmo "neurite óptica crônica inflamatória recorrente" (conhecida pela sigla CRION, do inglês Chronic Relapsing Inflammatory Optic Neuropathy), que costuma responder bem aos corticoides.
Espero que estas informações tenham sido claras e úteis para compreender um pouco mais sobre a neurite óptica e a importância de um diagnóstico e tratamento precisos. Se você ou alguém que conhece está vivenciando sintomas visuais como os descritos, ou se já recebeu um diagnóstico de neurite óptica e busca um acompanhamento especializado, é fundamental procurar um neurologista. Eu estou à disposição para ajudá-lo(a) a entender melhor sua condição, oferecer o suporte necessário e traçar o melhor caminho para o seu bem-estar. Não hesite em buscar uma avaliação médica especializada para cuidar da sua saúde visual e neurológica. Para quem deseja aprofundar ainda mais neste tema, tenho um vídeo em meu canal do YouTube que aborda a neurite óptica, neste link: https://youtu.be/wEbJ3yOsEH4?si=KmXzpW7Vht9EBWk2
Um abraço,
Dr. Mateus Boaventura Neurologista especialista em Esclerose Múltipla e Neuromielite Óptica
CRM-SP 152585 RQE 70828
Referências:
- Bennett JL, Costello F, Chen JJ, et al. Optic Neuritis and Autoimmune Optic Neuropathies: Advances in Diagnosis and Treatment. The Lancet Neurology. 2023;22(1):89-100.https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1474-4422(22)00187-9/abstract
- Montalban X, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2024 revisions of the McDonald criteria. The Lancet Neurology. 2024;24(10):850-865.https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1474-4422(25)00270-4/fulltext







