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- Quais são os tipos de Esclerose Múltipla?
Como neurologista especializado em Esclerose Múltipla, percebo que uma das dúvidas mais comuns de pacientes e familiares é sobre os "tipos" da doença. Historicamente, a Esclerose Múltipla foi classificada em diferentes tipos clínicos: Esclerose Múltipla Recorrente-Remitente (EMRR), Secundária Progressiva (EMSP), Primária Progressiva (EMPP) e Progressiva com surtos Essa distinção baseava-se em padrões de surtos, remissões e progressão da incapacidade.
No entanto, a ciência avançou muito, e hoje entendemos que a Esclerose Múltipla é, na verdade, uma doença única e complexa. Em vez de "tipos" separados, pensamos nela como um espectro contínuo, onde o que varia é a predominância de inflamação aguda, inflamação crônica e neurodegeneração ao longo do tempo, e não entidades completamente distintas.
A tendência atual na neurologia é considerar a Esclerose Múltipla como uma doença única, cujas manifestações clínicas refletem diferentes graus e padrões de inflamação e neurodegeneração. Fatores como a idade do paciente e a capacidade do corpo de se adaptar influenciam essa apresentação. Embora ainda usemos os termos "EMRR", "EMSP" e "EMPP" para nos comunicarmos e em estudos, é importante saber que eles não representam doenças distintas. Há uma sobreposição significativa e uma transição gradual entre essas formas ao longo do tempo. Com os tratamentos atuais, nosso objetivo é que a doença evolua com sequelas e progressão.
Hoje, o diagnóstico e o manejo da Esclerose Múltipla se concentram em monitorar a atividade inflamatória (seja através de surtos clínicos ou de novas lesões visíveis na ressonância magnética) e a progressão da incapacidade. Entendemos que esses dois processos podem coexistir desde o início da doença. Falando em início da doença, outros termos muito falados são a RIS e a CIS:
Síndrome Clinicamente Isolada (CIS): O Primeiro Sinal
A Síndrome Clinicamente Isolada (CIS) é um conceito importante nesse cenário. Ela se refere ao primeiro episódio de um sintoma neurológico agudo que sugere desmielinização no cérebro ou na medula espinhal, mas que ainda não preenche todos os critérios para um diagnóstico definitivo de Esclerose Múltipla. Sintomas típicos incluem neurite óptica, dormência ou fraqueza súbita. A presença de lesões típicas de EM na ressonância magnética (RM) já nesse primeiro momento aumenta o risco de conversão para Esclerose Múltipla. Por isso, pacientes com alto risco de conversão podem se beneficiar de tratamento precoce com terapias modificadoras da doença.
Síndrome Radiologicamente Isolada (RIS): A EM "Invisível"
Outra situação que tem ganhado destaque é a Síndrome Radiologicamente Isolada (RIS). Imagine que alguém faz uma ressonância magnética por outro motivo e, sem ter nenhum sintoma neurológico, encontra lesões que são características de Esclerose Múltipla. Isso é a RIS.
Sabemos que aproximadamente 30% a 50% das pessoas com RIS evoluem para Esclerose Múltipla clínica em 5 a 10 anos. Recentemente, estudos demonstraram que terapias modificadoras de doença podem retardar ou prevenir o primeiro evento clínico em RIS de alto risco. Os novos critérios diagnósticos de 2024 já classificam muitos casos de RIS como Esclerose Múltipla.
Em resumo, a CIS representa o primeiro evento clínico de desmielinização, enquanto a RIS é um estágio pré-clínico identificado apenas por imagem. Ambos têm implicações prognósticas e terapêuticas relevantes, exigindo uma vigilância rigorosa para intervenção precoce, o que pode mudar a trajetória da doença.
Dr. Mateus Boaventura Neurologista especialista em Esclerose Múltipla e Neuromielite Óptica
CRM-SP 152585 RQE 70828
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