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- Quais são os principais sintomas da Esclerose Múltipla?
Em cerca de 85% dos casos, a Esclerose Múltipla se manifesta inicialmente na forma de surtos. Esses surtos aparecem como sintomas neurológicos que duram entre dias e semanas, e podem ser bastante variados, afetando diferentes funções do sistema nervoso central, como a visão, a sensibilidade, a força muscular, o equilíbrio e a coordenação.
Um dos surtos mais reconhecíveis é a neurite óptica, uma inflamação do nervo óptico que causa redução da acuidade visual — visão embaçada ou dificuldade de enxergar — e dor ao movimentar os olhos. Outros surtos podem se manifestar como dormência e formigamento nos membros, desequilíbrio, fraqueza muscular, e alterações no controle da bexiga e do intestino, como urgência ou incontinência urinária. Na maioria das vezes, esses sintomas melhoram, de forma completa ou parcial — o que chamamos de remissão — mas tendem a recorrer ao longo do tempo. É justamente essa tendência de remitir e recorrer que dá nome ao principal tipo de Esclerose Múltipla: a forma remitente-recorrente.
Além dos surtos, muitos pacientes experimentam sintomas persistentes mesmo em períodos de remissão, como fadiga crônica, dificuldades de atenção, concentração e memória, além de disfunções sexuais. São sintomas que, por não serem visíveis a quem observa de fora, costumam ser chamados de "sintomas invisíveis" da Esclerose Múltipla — e que, mesmo assim, impactam profundamente a qualidade de vida.
Em uma parcela menor dos casos (na forma primariamente progressiva, EMPP) a doença não apresenta surtos bem definidos e, em vez disso, progride lentamente desde o início, com piora gradual de funções como a marcha, a força muscular, o equilíbrio e, em alguns casos, a cognição. Existe ainda a possibilidade de uma fase inicialmente remitente-recorrente evoluir, após vários anos, para uma progressão lenta e gradual da incapacidade.
Reconhecer esses sintomas precocemente é essencial, porque muitos pacientes acabam percorrendo diferentes especialistas antes de chegar ao neurologista — oftalmologistas, nos casos de sintomas visuais, ou ortopedistas e cirurgiões vasculares, nos casos de sintomas em membros. Esse caminho mais longo pode significar um acúmulo de sequelas, caso o diagnóstico e o tratamento não sejam iniciados a tempo. O processo diagnóstico envolve uma avaliação detalhada da história dos sintomas, exame neurológico e exames complementares: ressonância magnética, estudo do líquor por punção lombar e exames laboratoriais que ajudam a descartar outras doenças com apresentação semelhante.
A boa notícia é que o cenário terapêutico mudou de forma significativa nas últimas décadas. Antes de 1993, não havia nenhum tratamento eficaz aprovado para a Esclerose Múltipla. Hoje, existem mais de dez opções de tratamento para a forma remitente-recorrente, entre medicações autoinjetáveis, orais e venosas, além de uma opção venosa específica, aprovada mais recentemente, para a forma primariamente progressiva. Cada opção de tratamento possui um grau de eficácia e um perfil próprio de efeitos adversos, e a escolha é sempre individualizada. O objetivo central é prevenir novos surtos, evitar novas lesões e reduzir o acúmulo de incapacidade ao longo do tempo.
Embora ainda não exista uma cura que controle totalmente a doença, mais de 30 anos após a aprovação da primeira terapia, a história e o prognóstico de quem vive com Esclerose Múltipla melhoraram de forma expressiva. Um grande percentual de pacientes consegue hoje manter uma boa qualidade de vida e não evoluir para uma incapacidade neurológica significativa, desde que receba um diagnóstico e um tratamento precoces e adequados.
Se você identificou algum desses sintomas em si mesmo ou em alguém próximo, não hesite em buscar uma avaliação neurológica especializada. Reconhecer os sinais e agir rapidamente é, muitas vezes, o fator que mais influencia o futuro de quem convive com a Esclerose Múltipla.
Um abraço,
Dr. Mateus Boaventura
Neurologista especialista em Esclerose Múltipla e Neuromielite Óptica
CRM-SP 152585
RQE 70828
Referências Científicas:
1. Jakimovski D, Bittner S, Zivadinov R, Morrow SA, Benedict RH, Zipp F, Weinstock-Guttman B. Multiple sclerosis. Lancet. 2024 Jan 13;403(10422):183-202.
2. Montalban X, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2024 revisions of the McDonald criteria. The Lancet Neurology. 2024;24(10):850-865.











